A educadora de Pilates, Marla Lopes, concedeu entrevista exclusiva contando sobre sua experiência com mulheres gestantes no ambiente Pilates. No texto, ela compartilha um pouco de conhecimento sobre o assunto Pilates na gravidez. Confira.
Como surgiu o interesse de falar sobre Pilates na gravidez?
Marla: Tenho estudado o processo da gravidez, de forma aprofundada, desde 2004. Em 2005, lancei o WorkShop de Pilates na Gravidez, ministrado pelo Brasil. De lá pra cá , muitos cursos com o tema Pilates na gravidez foram criados, muitos vídeos, e-books etc. Verdadeiramente, o que me motivou a escrever sobre o tema foi a quantidade de conteúdo preocupante que vi por aí. Textos equivocados, vídeos perigosos, movimentos contraindicados, muita coisa sem critério e sem embasamento. E o que é pior, muitas dessas coisas ruins viralizando na internet como algo legal, interessante e reprodutível. Isso tudo me causou pânico! Conheço profundamente o processo gestacional e pós-gestacional e posso afirmar, tenho medo do que essa falta de qualidade pode causar.
O que você acha mais importante destacar sobre esse tema?
Marla: Gravidez não é doença, mas inspira muitos cuidados. Não existe nenhum outro período na vida adulta em que ocorram mudanças fisiológicas tão significativas, e num pequeno espaço de tempo, quanto na gravidez.
As demandas e mudanças são muitas e modificam-se ao longo dos três trimestres gestacionais. A mulher passa os nove meses tentando se ajustar, reconhecer e ter domínio sobre esse novo corpo em transformação.
Então, é fácil entender que o corpo está em rápida e constante mudança. Isso impõe uma necessidade de ajustar o repertório de exercício, modificar alguns posicionamentos e movimentos (para adaptar a elas) e eliminar muitos exercícios nesse processo.
É preciso que fique claro: nem tudo pode e muita coisa não dá para adaptar do Pilates na gravidez. Isso independe do nível de condicionamento físico que tinha a aluna antes de engravidar.
Você ministra workshops, certo? Como o público pode fazê-lo?
Marla: Sim, ministro uma formação em gravidez, pós-parto e diástase, que é minha paixão. As informações sobre o curso estão disponíveis na página oficial. Com a formação sobre Pilates na gravidez, eu ajudo os profissionais a oferecerem aulas mais seguras para as futuras mamães, com um método exclusivo. Também tem um artigo com algumas dicas de exercícios de Pilates para gestantes.
Qual a maior queixa das grávidas?
Marla: As queixas variam ao longo dos meses e, é claro, são muito pessoais, podendo se diferenciar de uma a outra grávida. Mas, em linhas gerais,, observamos algumas queixas mais comuns em cada trimestre.
O primeiro trimestre é marcado por um aumento hormonal significativo, que pode produzir mal estar, vertigem, náusea, azia, sonolência, indisposição e atrapalhar o desempenho para o exercício. Esse é um momento também em que a imagem corporal começa a se modificar. As mamas aumentam bastante de volume, e a barriga começa a ficar diferente, mas ainda sem parecer uma barriga de grávida. Isso pode causar uma estranheza e uma diminuição na autoestima de algumas grávidas.
Ao chegar na 13ª semana, os níveis hormonais estão estabilizados, e há mais disposição para prática de exercícios. Como o hormônio relaxina já está em níveis altos no segundo trimestre, há instabilidade na região lombo-pélvica,. Além disso, as transformações biomecânicas podem favorecer o aparecimentos de dores lombo-pélvicas e na sacro-ilíaca que se acentuam no terceiro trimestre. Vale lembrar que, com o aumento da barriga e a mudança no centro de gravidade, ocorre consequente alteração no controle do corpo, no equilíbrio e na força muscular.
Por fim, no terceiro trimestre há um significativo aumento do metabolismo, maior ganho de peso do bebê e maior sobrecarga à coluna e extremidades. Assim, as dores lombo-pélvicas podem ser mais intensas, pode haver queixa de edema nos membros inferiores, maior dificuldade em respirar, maior predisposição a perdas urinárias, mais instabilidades e risco de queda, além do aparecimento de Síndrome do Túnel do Carpo, Meralgia Parestésica e Condromalácea Patelar.
Qual a diferença em trabalhar com o Pilates na gravidez?
Marla: Qualquer programa de exercícios para grávida precisa ser individualizado ao máximo. Ou seja, deve-se respeitar os limites de resistência e flexibilidade, nível de aptidão, saúde geral, idade, atividade física prévia, sua individualidade biológica e o estágio da gravidez em que se encontra.
Muitas dessas observações estão também presentes ao se prescrever exercícios para mulheres não grávidas. A grande diferença está em respeitar sua condição gravídica e entender todo o processo que envolve a gravidez.
O olhar do profissional precisa estar apurado. A seleção de exercícios deve, realmente, ser direcionada para as necessidades de cada fase, sem impor riscos. Não há exageros, excessos, grandes amplitudes, exercícios exaustivos, não há riscos. Há cuidado e muito respeito a esse corpo em transformação que carrega outra vida.
Tem alguma contraindicação para trabalhar com grávidas?
Marla: Tem muitas contraindicações, sim. Umas dizem respeito à saúde das grávidas. Outras, por sua vez, dizem respeito ao que não é seguro realizar com elas.
Com relação à saúde, em alguns casos, o exercício está estritamente proibido (contraindicações absolutas). Por exemplo, no descolamento prematuro da placenta, sangramento vaginal, pré-eclâmpsia, doença cardíaca grave, hipertensão pela gravidez, retardo do crescimento uterino.
Em relação ao que é seguro realizar com elas, vale ressaltar algumas observações. Com o aumento da relaxina, os tecidos estão mais frouxos e há maior flexibilidade. Mas isso também aumenta o risco de lesão com alongamentos intensos e movimentos bruscos. É proibido realizar exercícios invertidos, valsalva, deitar de barriga pra baixo, deitar de barriga pra cima por muito tempo (a partir do segundo trimestre), saltar e também se exercitar em ambiente quente.
Mas eu preciso abrir parênteses aqui pra lembrar. É terminantemente proibido realizar exercícios que exijam força do abdômen. O profissional não pode colocar a grávida em situação de risco de queda. É contraindicado fazer rolamentos do tipo Roll Up, Roll Over, Corkscrew, ou exercícios como Hundred, Single ou Double Leg Stretch, Leg Pull, ou quaisquer outros que se assemelhem a esses.
É importante interromper o exercício rapidamente caso haja alguma dor ou desconforto (principalmente na região abdomino-pélvica), tontura, forte câimbra, dor no peito, sangramento, queda de pressão.
Durante a aula, é importante que a grávida esteja atenta ao seu corpo para identificar mudanças, perceber sinais e limites. Isso pode ser muito útil para segurança durante os exercícios e ajuda a grávida a se proteger.
Ou seja, trabalhar com segurança e sem produzir riscos. Esse é nosso papel como profissional e nosso compromisso com nossos clientes que depositam em nós a sua saúde.
* Artigo revisado e atualizado, originalmente publicado em 26 de abril de 2019.





