Envelhecendo no estúdio de Pilates – Parte I

Será que realmente sabemos o que é envelhecer?

Trabalhando com o método Pilates desde 2004 fui percebendo que cada vez mais nossos clientes possuíam idade acima dos 50 anos. Na verdade, uma parte destes eram aquelas pessoas que se tornaram praticantes assim que abri meu primeiro estúdio na cidade de São José dos Campos em 2005 e, que na época, tinham por volta de 40 anos idade e, como já estavam comigo há mais de dez anos (algo que tenho certeza que outros colegas compartilham comigo, o fato de que uma boa parcela de nossos clientes perduram conosco, costumo carinhosamente conversar com eles e dizer que são praticamente meus sócios fundadores, rs), além daqueles que já haviam procurado o método por volta dos seus 50 anos e já estavam com mais de 60… Foi observando a mudança que ocorria neles (e também em mim), que me fiz a seguinte pergunta: Será que estamos oferecendo o que tem de melhor para estas pessoas a longo prazo? Será que realmente estamos estudando o suficiente para acompanhá-las por mais 10, 20 ou 30 anos? E foi procurando estas respostas que resolvi voltar para a universidade e aprofundar meus estudos nesta área fascinante que é a gerontologia.

Confesso que no início eu achei q sabia o que era envelhecer, mas já nas primeiras disciplinas do Programa de Mestrado em Gerontologia da Universidade de São Paulo percebi que meus conhecimentos eram ainda superficiais.

O envelhecimento populacional é uma realidade mundial que se constitui como uma grande conquista para a sociedade, mas o que envolve realmente este processo que é natural e inevitável?

Envelhecer é um processo biopsicossocial, isto é, depende de diversos fatores que permeiam as questões biológicas, psicológicas e sociais. É um processo pois acontece durante toda a vida… Do ponto de vista biológico, inicia-se no nascimento e continua até a morte, sendo acompanhado por alterações dos diversos sistemas corporais de maneira não linear, isto é, não existe um marco único para seu início mas seu impacto pode ser percebido a medida que pode afetar nossa capacidade funcional e nos tornar mais susceptível às doenças. Além do aspecto biológico, é necessário se atentar para o fato de que existe uma integração entre as questões biológicas, psicológicas e sociais; fatores como condição de saúde, atitudes perante a vida, cuidado de familiares, acesso ao sistema de saúde, questões socioeconômicas e políticas não podem ser ignoradas. Resumidamente, envelhecer é um fenômeno que acontece todos os dias, que integra nosso corpo físico, psíquico e “social” contemplando nossa dimensão histórica, social e biográfica.

Considerar que idoso é aquela pessoa que possui 60 anos ou mais nos países em desenvolvimento ou 65 anos ou mais nos países desenvolvidos, é criar um marco etário na tentativa de auxiliar as demandas públicas (previdência e sistema de saúde), mas não é verdade que dormimos um dia como adulto (com 59 anos) e acordamos no outro dia como idoso (60 anos), como afirma Beauvoir, “A idade cronológica e a idade biológica estão longe de coincidir sempre: a aparência física informa mais que os exames fisiológicos sobre a nossa idade”. Podemos então dizer que se envelhece como se vive! A verdade é que o que eu fizer durante a minha vida estará intimamente relacionado com a qualidade da minha velhice.

Voltando então ao ambiente do nosso estúdio, podemos pensar que temos 2 grupos de clientes, aqueles que estão ainda se preparando para a velhice (nossos clientes de 30, 40 e 50 anos) e aqueles que já estão nesta fase (60, 70, 80 e 90 anos). Com a primeira turma, nosso objetivo maior será aumentar a reserva funcional de cada um e, para a segunda turma, teremos que identificar quais déficits funcionais já possuem para podermos realizar um programa realmente eficiente.

A partir de agora, vou tentar aprofundar um pouco mais na avaliação e propostas de movimentos para aqueles nossos cliente da “segunda turma”, rs! Vale ressaltar que vou trazer algumas pontuações que me ajudaram neste caminho pois não será possível esgotarmos todo o assunto!

Como fazer uma avaliação adequada aos idosos?

Realizar uma avaliação adequada será primordial para que possamos traçar um plano adequado durante as sessões. O que é então importante observarmos/avaliarmos nos idosos?

1) Queixa principal, histórico atual e prévio de doenças/traumas, histórico familiar: esta etapa é a mesma para todas as avaliações;

2) Práticas de atividades físicas realizadas durante a vida: esta pergunta pode nos dar dicas sobre a possível reserva funcional que o idoso possui;

3) Medicamentos em uso: pesquisar se os medicamentos não estão dentre os indicados na lista de critérios de Beers-Flick;

4) Exames complementares: muito importante perguntar sobre o Exame de Densitometria óssea. A presença de osteoporose pode contraindicar a realização de muitos movimentos de flexão de tronco;

5) Questionar sobre a rotina diária: este tópico pode ser importante para que possamos identificar possíveis pioras ao longo do tempo. Perguntar se o idoso precisa de ajuda para: (1) vestir-se; (2) tomar banho; (3) usar o telefone; (4) preparar a própria comida; (5) fazer compras e (6) usar meios de transporte;

6) Questionar sobre histórico de quedas: este é um tópico muito importante! Se o idoso já teve uma queda, isso o predispõe a ter novas quedas! No geral, 30 % do idosos com 65 anos ou mais caem por ano e, 50% daqueles com mais de 85 anos caem com frequência; As quedas podem resultar em muitos prejuízos e até na morte, por isso, precisamos ficar atentos;

7) Investigar sobre o funcionamento de todos os sistemas: visual, auditivo, vestibular, sensorial, digestório, reprodutivo, renal, cardiovascular, neural, além de perguntar sobre a qualidade do sono;

8) Avaliação postural: importante observar a existência de hipercifose pois pode ser indicativo de osteoporose caso o idoso pontue que já perdeu mais de 2 centímetros de sua altura ao longo da vida;

9) Inspeção: além das observações convencionais, realizar perimetria da panturrilha: medidas inferiores a 31cm podem indicar perda de massa muscular;

10) Teste de força muscular, principalmente de membros inferiores. Os idosos podem perder até 50% da força até os 80 anos de idade e este declínio ocorre frequentemente nos membros inferiores, em especial, no músculo quadríceps. O teste da força de preensão manual tem sido utilizado como um indicado de déficits de força, porém precisa ser realizado com a utilização de um equipamento específico (e caro) o que o torna um pouco complicado no nosso ambiente;

11) Teste funcionais:
Os testes abaixo avaliam de forma a força muscular e membros inferiores e o equilíbrio. Os valores apresentados abaixo são apenas uma referência indicando que tempo acima do esperado pode indicar algum tipo de déficit funcional (BOHANNON; 2006).

a. Sentar e levantar de uma cadeira sem ajuda das mãos por 5 vezes:

i. Idosos entre 60 e 69 anos: tempo máximo esperado 11,4 segundos
ii. Idosos entre 70 e 79 anos: tempo máximo esperado: 12,6 segundos
iii. Idosos entre 80 e 89 anos: tempo máximo esperado: 14,8 segundos

b. Teste Time Up and Go (mensurar o tempo em segundos para o idoso levantar de uma cadeira, caminhar 3 metros, virar, caminhar de voltar e sentar):

i. Idosos entre 60 e 69 anos: 8,1 segundos
ii. Idosos entre 70 e 79 anos: 9,2 segundos
iii. Idosos com 80 anos ou mais:11,3 segundos

c. Equilíbrio em uma perna só: consegue ficar em uma perna só sem apoio por quanto tempo? Utilizar este valor para comparações futuras.

Espero que já tenha ajudado a pensar um pouco sobre esse tema, e no próximo texto continuarei falando sobre os idosos, e como planejar sessões específicas para eles.

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